O desconto

Migalhas afetivas: quando o pouco virou o seu normal

Migalha não é o que ele te dá. É o que sobrou depois que ele foi tirando.

Ninguém aceita pouco de cara. O que acontece é erosão: ele tira uma coisa, espera, e olha se você fala alguma coisa. Quando você não fala, aquilo vira o normal novo, e o normal seguinte começa dali.

Por isso a conta parece absurda vista de fora e razoável vista de dentro. Você não desceu um degrau. Você desceu quarenta, um de cada vez, e cada um parecia pequeno.

A peça, inteira 2:00

O desconto

2:00

Vamos falar do começo de vocês dois.

Ele te buscava. Respondia na hora.

E você nunca falou nada sobre isso ter parado.

Porque ele não parou de uma vez.

Foi tirando uma coisa de cada vez —

e entre uma e outra, esperava.

Esperava pra ver se você ia falar alguma coisa.

Quando você não falava, aquilo virava o normal novo.

Eu sei porque eu fazia isso.

Eu reparava no que passava batido,

e o que passava batido eu parava de fazer.

Dava menos trabalho.

Mas eu também já estive do outro lado.

Parado no carro, na garagem, sem coragem de subir,

por causa de uma pessoa.

Até o dia que eu olhei pra ela de verdade.

OLHA ESSA MINA!

ELA NÃO TEM NADA!

O PROBLEMA TÁ AQUI DENTRO, PORRA!

Ela não era nada demais. Nunca foi.

Era eu que tava transformando ela em alguma coisa.

Agora olha pra esse cara. Olha de verdade.

Tira o começo, tira o que ele prometeu.

O que sobra é um cara que você passaria batido na rua.

E a pergunta deixa de ser o que ele fez.

Vira: o que em você aceitou tanto desconto por tão pouco?

Não é culpa. É endereço.

Se o problema fosse ele, você dependia dele pra sair.

Vai. Com medo mesmo.

Como medir o quanto você desceu

  1. Volta ao primeiro mês de vocês. Escreve três coisas que ele fazia e não faz mais.
  2. Pra cada uma, responde: eu falei alguma coisa quando parou?
  3. As que você não falou nada são o mapa. Não é que ele foi te enganando. É que cada silêncio seu foi lido como permissão, e a próxima retirada começou dali.

Tira o começo e tira o que ele prometeu. O que sobra é um cara que você passaria batido na rua.

A porta

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Perguntas que chegam junto

O que são migalhas afetivas?

É receber o mínimo de alguém que já te deu mais, e passar a tratar esse mínimo como se fosse o normal. A palavra dá a entender que a pessoa é mesquinha desde sempre, mas quase nunca começa assim: começa completo e vai sendo retirado aos poucos, com uma pausa entre cada retirada pra ver se alguém reclama.

Por que eu aceito migalhas se sei que mereço mais?

Porque saber não é o que decide. Você não está comparando o que recebe hoje com o que merece. Está comparando com o que recebia mês passado, e a diferença mês a mês é sempre pequena o bastante pra não valer briga. É essa a mecânica. Não tem a ver com autoestima baixa; tem a ver com régua móvel.

Como parar de aceitar migalhas?

Para de medir contra o mês passado e passa a medir contra o primeiro mês. É a única comparação que mostra o tamanho real. E a pergunta muda de lugar: em vez de o que ele fez, vira o que em você aceitou tanto desconto por tão pouco. Isso não é culpa. É endereço. Se o problema fosse ele, você dependeria dele pra sair.